Monthly Archives: outubro 2011

14/10/2011

JANELAS PLENAS DE LUZ

 
 
 


Meu pai sempre foi um estudioso de engenharia e logo aprendeu como é importante que sua casa seja face norte.  No começo de nossas vidas moramos numa casa na Vila Mariana. O quarto do casal e a sala eram face sul.  Minha mãe acordava todos os dias com enxaqueca- e dá-lhe palmada, dá-lhe gritaria, mau humor.  Eu vivia doente Só percebemos a importância da luz solar quando mudamos para uma casa na rua Carlos Sampaio. Nesta casa a sala, os dois dormitórios e a cobertura (depois transformada em escritório e salão de festas) possuíam grandes janelas face norte.  Acordávamos já com o beijo do sol.  É provável que minha família não tenha fotofobia então o nosso humor realmente melhora com a luz do sol.  Mas o que mais me chamou atenção em todos os locais onde morei foi a luz do pôr-do-sol quando tínhamos uma janela face Oeste.  Que coisa deliciosa é poder olhar todos os dias o pôr-do-sol, as cores que se cambiam, o calor que ele traz.  É como assistir a um novo espetáculo a cada dia.  Minha casa atual tem uma vitrine na sala-que olha para o norte e também tem uma janela face oeste. Na verdade quase não tem paredes- as que sobraram são cobertas de livros- mas estou rodeada de vidros.  E de luz. Minhas visitas de final da tarde ficam boquiabertas com o espetáculo do por-do-sol.  Os amigos fotógrafos “invejam” minha luz.

Com a invasão de edifícios com alturas estratosféricas em nossa cidade temos muita dificuldade em ter insolação ou mesmo claridade. Morei nove meses em apartamento no sexto andar na Rua Pernambuco.  O edifício é lindo, tem janelões de vidro até o chão e é face norte, porém, a proximidade e altura dos prédios em frente impedem a chegada do sol e da luz, que só pincela o prédio algumas horas por dia.  Isso, alem do fato que para ver o céu você precisa chegar junto da janela e esticar o pescoço pra cima.  Nem a facilidade de fazer tudo a pé (versus passar horas no transito do Morumbi) me fizeram feliz.  Passei  meses acabrunhada procurando céu e luz.

Hoje quando penso em morar em apartamento  vejo como é difícil repetir a minha situação atual de luz- quando você acha um apartamento  face norte, com grandes janelas, muito bem iluminado tem que ser próximo de uma esquina onde o terreno da esquina em frente seja pequeno o suficiente para que não seja vendido para uma incorporadora construir um prédio. Minha única saída seria comprar uma cobertura ou pagar o mico do trânsito do Morumbi mas recebendo doses diárias de espetáculos de luz.  Para isso  tenho que ganhar na loteria….Ah estes devaneios…

 
10/10/2011

O POEMA NA FOTO

 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O POEMA NA FOTO

 

Bronzeados, sorriem, as duas crianças no colo do meu esposo.

O sol está cansado depois de um dia na praia.

Meu filho não tem o olhar de uma criança de apenas três anos

mas seu braço se apoia completamente sobre o do pai,

dedos do filho seguros ao polegar do pai.

Minha filha repousa seu braço sobre o do irmão, sua cabecinha

levemente recostada, esconde

a mão de meu esposo que afaga

seus cachos de seda, de um ano.

 

Meu esposo é o único que sorri diretamente à câmera,

suas linhas em paz.

Ele sabe

que essa foto ainda terá voz

muito depois do vento soprar o sol

ao silêncio.